‘In Memoriam’ a Manuel
Simões, meu pai
“ONTEM, 2 de fevereiro de 2006, ao regressar das
férias do trabalho e adentrar na sala de uma colega, deparei-me com um calendário
do ano de 2006 que levou a reacender em mim a imagem de meu pai. Ele apreciava
muito esse tipo de calendário: aquele em que a gente vai retirando a folha
correspondente ao dia anterior; em destaque, ficava apenas o número do dia
presente. Ao final de cada ano, ele não sossegava enquanto não conseguisse o
interessante calendário do ano seguinte.
Refletindo agora, imagino a simbologia daquela
‘folhinha’, como era então conhecida, para o meu pai. Ao destacar cada dia
passado, ele parecia renovar as esperanças do novo começo, acreditando na ideia
do ‘nada melhor do que um dia após o outro’.
Para os mestres espirituais do Oriente, segundo Jorge
Blaschke (“Além de Osho”), essa noção do tempo é verdadeiramente o eixo de seu
ensinamento. “Sempre existiram no fato de que devemos estar presentes, e estar
presentes é não estar pensando no passado nem imaginar o futuro, mas viver o
presente como a única coisa que existe.”
Não recordo de circunstâncias da vida de meu pai que
demonstrassem o seu apego ao passado. Ele possuía a feliz capacidade de superar
sempre as experiências mais difíceis de sua vida. Talvez por conta disto tenha
vivido 93 anos. Portanto, para ele, certamente, um novo dia significava a
necessidade da renovação diária da vida.
Então, essa minha permanente necessidade da renovação,
facilmente observada pelas pessoas que me circundam, dele eu herdei. Por outro
lado, infelizmente, não tivemos uma relação intensa de conversas e abraços,
mas, certamente, ainda assim, ele foi fundamental, com os seus notáveis
exemplos de lealdade e caráter, na minha formação humana. Manuel Simões e
Assunção de Jesus, minha mãe, tinham como marcas de vida essa joia de virtude:
a “generosidade”, herdada com forte vigor por mim e pelas irmãs.
Meu pai: onde quer que você esteja, lamento não haver
amadurecido mais cedo para melhor compreendê-lo e intensificar a nossa
convivência. Obrigado por tudo. E perdão pela minha ignorância até então!”
* Arquivos do
Tom
"O LEITOR pode argumentar que também existe o passado. Evidentemente, existe um passado; acontece que quando pensamos no passado o único que realmente reconhecemos é certa lembrança, que é, em si mesma, uma experiência do presente. Não podemos regressar ao passado para modificá-lo em nada, os fatos acontecidos são imodificáveis, os erros cometidos são imutáveis, os momentos de alegria e prazer são irrecuperáveis. Ainda que repetíssemos as mesmas ações, sempre seriam distintas. Não nos enganemos, estamos vivendo um eterno presente, sempre estamos no presente, no aqui e agora. Os mestres espirituais insistem na necessidade de compreender que o tempo não existe, que vivemos um contínuo presente. A mente nos engana criando etapas como o passado e o futuro; nunca estamos no passado, tampouco no futuro, sempre estamos no presente." Jorge Blaschke, "Além de Osho"
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